O cemitério na visão de um menino de seis anos

Certa vez, em viagem à Fortaleza na companhia de um neto, à época com idade em torno de seis anos, passamos em frente a um cemitério na beira da estrada, repleto de túmulos que mais pareciam casinhas. O cenário chamou a atenção do menino que perguntou:
– Quem mora nessas casinhas?
A pergunta causou surpresa, pois, jamais havia imaginado tal cenário. Confesso que demorei um pouco a responder por não querer criar uma imagem que viesse a causar medo na criança. Fui criada com medo de cemitério, porque me foi dito que ali se reuniam almas do outro mundo. E, como não entendia bem o significado de “alma do outro mundo”, mas sabia que para muitas pessoas era assustador, passou a ser para mim também. Não queria que essa estória tivesse continuidade com meu neto, pois, já adquirira o conhecimento da doutrina espírita. Dessa forma, passei a informação sem amedronta-lo, apenas esclarecendo.

Seguimos viagem e aquela interrogação não saia da minha mente: “Quem mora nessas casinhas”?

Quantas vezes transitei por aquela estrada sem sequer me dar conta da existência daquele cemitério, mas aquele dia foi diferente. Fiquei a imaginar o porquê de se construir moradas para os mortos, muitas até bem luxuosas, mas que não são visitadas habitualmente. Apenas uma vez no ano é que os familiares se preocupavam em verificar o estado em que se encontravam essas residências e algumas reformas são feitas, para receber os visitantes no dia de finados.

E fiquei a pensar, e quando chegar a minha hora, como será? Claro que não quero ser transportada para a cidade dos mortos, o meu corpo sim, pode seguir sua destinação, mas eu, espírito imortal, vou estar livre em algum lugar.

Eu que nunca gostei de cemitério e que jamais marcaria um encontro com familiares nesse lugar, também não gostaria de receber qualquer homenagem nesse dia, nesse lugar. E já tratei de resolver a situação com familiares esclarecendo que, após minha partida, com certeza teria a permissão de visitar meu lar e que, nesse dia em que os ausentes (prefiro chamar assim), recebem um convite especial dos familiares, que eu fosse convidada a visitar o meu lar. Gostaria de ver minha família reunida e para alegrar o ambiente, a música que pudesse relembrar nossos momentos. E que assim acontecesse em outras datas e não só dia de finados. Enfim, não gostaria de ser esquecida por meus familiares e nem impedida de visita-los.

Quantos familiares que adentram seus lares saudosos, que abraçam seus familiares e apenas conseguem registrar o sentimento de saudade. Se tivéssemos a consciência de que nos momentos de intensa saudade poderíamos estar diante de nosso seres queridos, aproveitaríamos o momento para retribuir o abraço e externar a nossa saudade.

Creio na imortalidade da alma e que as afeições prosseguem além da morte.
A morte é apenas um até logo com reencontro na vida espiritual.

 

Artigo escrito em 2 de novembro de 2011

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